Uma Pequena Tragédia
Vou contar a história de uma pequena tragédia que me ocorreu, mas também pode acontecer a você.
Imagine: um sábado à noite qualquer, em que você poderia estar fazendo qualquer outra coisa no mundo, em qualquer lugar, mas está em casa. O tédio toma conta. Passam horas e você continua procurando algo para assistir, verifica sua watchlist no Letterboxd ou qualquer outra coisa que possa lhe servir como fonte de indicação.
Após muito tempo, vem o veredito: o filme é escolhido ao acaso e, por sorte, é um bom filme. Do início da noite até a escolha do filme há uma longa odisseia, mas tudo isso é apenas o prólogo da tragédia. Ela começa mesmo depois que o filme acaba.
Aí você passa por um curto e breve luto. Em um tempo assombrosamente pequeno, foi apresentado a pessoas que nunca viu na vida, mas que rapidamente se tornaram tão familiares. Conhece seus dilemas e sonhos; conhece a forma como se apaixonam, o que as faz rir, o que as faz chorar. A impossibilidade de conhecer alguém em sua totalidade se contradiz. Aquelas pessoas são construídas para que você simpatize com elas, torça por elas, lamente por elas.
Porém, o encontro é breve, mesmo que se espremam décadas em poucas horas. O tempo que lhe é permitido observá-las passa avexado. Logo esses personagens seguem seu caminho e encontram um inevitável destino, escolhido por algum homem que resolveu brincar de Deus e traçar um fim: às vezes feliz, outras vezes trágico. Simples. Pronto. Sobem os créditos e as luzes se acendem.
Em você permanece uma saudade diferente. Um sentimento vazio que se espalha pelo quarto ou pela sala. Aos poucos, seus sentidos acordam e você percebe a realidade um pouco diferente. O sentido da vida se confunde um pouco. Ficamos ali, na corda bamba entre fantasia e realidade; a arte imita a vida, a vida imita a arte. Vida. Arte. A corda bambeia e você cai na real, obviamente.
É saudade legítima, apesar de tudo, apesar da mentira em que você escolheu acreditar porque era convincente demais para não ser verdade. Aqueles velhos conhecidos já não estão mais aqui, e tudo o que lhe sobra é um desejo de voltar para um passado recente em que ainda não tinha vivido nenhuma daquelas coisas nem visto aquelas imagens. A verdade dolorosa é que nunca mais se verá aquele filme com os primeiros olhos.
Essa é a hora mais temida. Você foi convidado para uma viagem dentro do filme, mas é retirado desse trem em movimento de forma abrupta. E fica a sensação de que a vida daquelas pessoas continuará sem que a presenciemos, porque apenas boa parte da verdade nos foi revelada, e o trem segue com um passageiro bisbilhoteiro a menos.
Você se pergunta se encontrará outra viagem com uma vista tão boa quanto aquela; tudo o que assistir por um tempo perderá um pouco da graça por não ser nada parecido com o que viu antes. E então, alguns dias passam e lá estamos nós, outra vez, entrando desavisadamente na vida de outro alguém, para que tudo aconteça de novo. Um filme qualquer, em um sábado qualquer, uma tragédia qualquer.

